Filamentos
Literatura de Cordel
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Filamentos
Autor:
Valentim Martins Quaresma Neto
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Utopia
Haverá um dia diferente de todos
Que a gente sofrida vai descobrir
Um jeito consciente de se unir,
Sem mentira, medo, traição engodo.
E o trabalhador com força e união
Fará um estrago no mundo burguês,
Viverá melhor com o salário do mês
Terá paz, saúde e alimentação
Em cada canto o som da verdade
Ecoará forte na sociedade
E o sol brilhante desse mundo novo
Trará o espírito da caridade,
A inteligência e a simplicidade
Habitará no coração do povo.
Valentim 12/06/2002
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Saudade
De Valentim p/ Cilma
A noite inteira
Ouvi os sons das ondas
Quebrando no penhasco...
Era o mar tentando abraçar a terra.
Senti uma falta imensa do teu abraço
Que estava além das ondas,
do horizonte e das serras
Murmurei insolente como o quebra-mar
Dormi sem sonhar...
E no outro dia corri depressa
para te encontrar.
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Sociedade maruja
Muitos estão mar adentro a se banhar
Outros estão mar à fora a trabalhar
Uns esbanjam o ócio e a luxúria
Outros míseros vivem na penúria
Há alguma coisa errada nessa vida
Há muita gente sendo excluída.
Mar, grande mar
Tu que és testemunha da história
Já presenciou fracassos e glórias
Sabes precisar.
Tu que és palco de conflito sem razão
Qual seria a viável solução?
Que pudesse aplacar
O fogo da injustiça que queima criaturas
E que é tão quente enquanto dura
Mas, será tão frio quando apagar.
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O trocador
Transportaram-me, e jogaram-me
bem perto do mar
Apropriei-me dele e fiquei a contemplar...
De repente deu-me uma
vontade louca de gritar
E por toda orla comecei a perguntar:
-Quem quer trocar? Quem quer trocar?
Eu troco este mar por um mandacaru
Eu dou este mar por um urubu.
Ninguém respondia,
E sem companhia
Peguei o jumento do vento
E voltei para acalmar meu coração
E abraçar demoradamente o meu sertão.
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Pensando em construir
Pensando em ver um dia
Um Logradouro feliz,
Com pena peguei a pena,
E esses versinhos fiz:
Invoquei o Pio X
E ele me deu uma prova
Se amarrarmos as ações
Teremos Morada Nova
Se dos Altos as Barrocas
O povo se educar
O Umarizinho cresce
Não vai ficar como está...
Nas garras dos gaviões
Deve está faltando fé
Existem poucas ações
Da Cabaceira ao Cobé.
É preciso nos unir,
E desatarmos o nó,
Devemos dizer a Rosa
Que ela não está só...
Mesmo os currais sendo novos
Há um jeito de transpor
É voando como as Pombas,
Iracemas ou condor...
A ação é coletiva
E a coragem é do povo
O Alegre deve voltar
A ser alegre de novo.
Lá do alto do Serrote
Os anjos digam amém.
Nos galhos da Pitombeira
Poucas pitombinhas têm...
Os cajus do Cajueiro
Esperamos e não vêm.
E para nos encontrarmos
E o melhor decidir
Não existe outro lugar
A cidade é Umari,
É hora de trabalhar
É hora de construir
Juntarmos forças e gritarmos
Nosso lugar é aqui.
Valentim 14/09/2002
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UMARI, UMARI, UMARI...
Uma florzinha pequena
Maravilha de um jardim
Assim é minha cidade
Rebento de amor sem fim
Incrível simplicidade pra você e para mim.
Um problema a cada instante
Mas, logo uma solução...
As pessoas são a base
Raízes de sustentação
Inventam a cada instante novas formas de perdão...
Uma cidade pequena
Mesmo dentro do sertão
Amarga a seca insolente
Reluta com o coração
Irriga com suas lágrimas toda sua plantação...
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O que Restou ao Poeta
Em cada Estado um povo inconsciente
Que não sabe votar nem eleger,
Em cada cidade um chefe incompetente
Querendo demonstrar que tem poder...
Afogados na ganância e na orgia
Despidos de amor e piedade,
São poucos, mas com falsas alegrias
Vão garantindo a propriedade...
Um chute, um gol, um som, uma festa
E as imagens de tudo que não presta
Fazendo a cabeça do povão...
Realidade muito dura esta!
Mas ainda resta ao poeta
Um único verso pra dizer um não.
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Nota Fria
Abri o jornal bem cedo
Senti que o mesmo fedia
Tinha uma página inteira
Coberta de porcaria.
Respirei e li a nota,
Era uma nota tão fria!
E como um bloco de gelo
Esfriou minha alegria...
Nota de falecimento,
Se fosse melhor seria
Sepultei minha esperança
A partir daquele dia
Ao saber que aquela nota
Confirmava a tirania,
Desabou aqui no peito
A tristeza em demasia.
Percebi que no meu rosto
A lágrima quente descia
Como se fosse um aviso
Da criança que morria...
Quanta falta de apoio,
De pão e de moradia
Por causa daquela nota
Na sociedade existia...
O choro do inocente
Que daquilo não sabia
Estourou o meu ouvido
Numa súplica que dizia:
Homem, negócio, dinheiro
Pessoa, mercadoria,
Calafrio, pesadelo,
Desmantelo, nota fria.
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MAQUIAGEM MAQUIAVÉLICA
Maquiagem maquiavélica
Mãe da hipocrisia
Ofuscas a luz do meu dia
Substância bélica,
Maquiagem maquiavélica
Representação, fingimento,
Supérfluo, desnecessário
Eu não sou otário,
Prefiro o galope do meu jumento.
Maquiagem maquiavélica
Olhos sujos, bocas tortas,
Máscaras das bruxas,
Transformação da Xuxa
Sociedade morta.
Maquiagem maquiavélica
Cheiro de burguês
Moda, televisão.
És a demonstração
Da insensatez
Maquiagem maquiavélica
Caminho da cobiça
Que ao nada conduz...
Maquia os tapurus
Gordos de preguiça.
Maquiagem maquiavélica
Sonhos dos insanos
Quase sem juízo
Insumos, resíduos.
De atos desumanos...
Maquiagem maquiavélica
Maquia minha fome
E exalar teu odor
De muito desamor
No nariz dos homens.
(SAL)
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Estatuto regente da Sociedade dos Artistas Livres (SAL)
Pedimos ao Pai Celeste
Para nos dar proteção
Queremos formar um grupo
De artistas do sertão
E aumentar a cada dia
Nossos laços de união...
Que as boas coisas da vida
No campo ou na cidade
Não são luxos, nem riquezas
Provêm da simplicidade
Estão nas pequenas coisas
Vindas da pura verdade
A intenção desse grupo,
Antes que alguém descarte,
É viver intensamente
E fazer a sua parte
Expressar os sentimentos
Com o auxílio da arte
Sem nenhum fim lucrativo
Que busque o capital
Com o simples objetivo
De estudar que é legal
E de dar mais incentivo
Nasce a turma da SAL
Nasceremos como o sol
Para esquentar a brisa
Seremos filhos da luta
Amaremos a pesquisa
E o manto do monsenhor
Nos servirá de camisa
Todos os membros do grupo
Comprometem-se a fazer
Registros de suas raivas,
Alegrias ou prazer
Desenhando ou por escrito
Para a arte acontecer
Os trabalhos produzidos
Serão ao povo mostrados
Especialmente aqueles
Com arte elaborados
E na medida do possível
Poderão ser publicados
Cada membro deve ter
Uma consideração
As idéias e princípios
Que regem a instituição
E sempre está presente
Quando houver reunião.
Qualquer membro desse grupo
Que se danou a beber
Alguma bebida alcoólica
Não deve comparecer
Aos encontros de estudo
Para o grupo não morrer.
O que da vida a um grupo
É ordem e disciplina
E arte é coisa séria
Melindrosa e muito fina
É simples e é complexa
Como o amor de menina...
Aos artistas dessa escola
Ouçam a convocação
Pensem antes de entrar
Escutem o coração
Se quiser junte-se a nós
É sua a decisão.
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Estudante
Em busca do saber
Estou eu, está você
Somos seres pensantes,
Buscamos a sabedoria
E a alegria de aprender
Aprender a ser, a conviver
A respeitar, a mar,
A agradecer a um supremo ser...
Que nos sustenta,
Que nos alimenta
E nos ensina a compreender,
A dizer não as injustiças,
A não aceitarmos a hipocrisia,
A amar mais o nosso dia,
A esperar o amanhecer,
A nunca retroceder,
A falar sempre a verdade
Ainda que pese a responsabilidade.
É preciso sentir o sofrimento alheio
É necessário juntarmos o bonito ao feio,
Sentirmos a dor do outro,
Compartilhar o sofrimento
Sem exigir nada em troca...
Unirmos as folhas à raiz,
Desmascarar os podres
Do sistema infeliz...
Estudar é tudo isso
É dizer sim ao sacrifício,
É purificar o coração
É se entregar livremente a paixão.
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Valentim Martins Quaresma Neto
Santa Helena-PB
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