A Menina do Vestido Azul
Literatura de Cordel
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Literatura de Cordel
Autor:
Francisco Diniz
João Pessoa-PB, 01 de outubro de 2005, 13h e 23min.
Licença caros amigos,
Eu sou Francisco Diniz
Literato de cordel,
Mas sempre um aprendiz,
Ando no mundo a falar
Da cultura popular
E isso me faz bem feliz.
E gostaria aqui
De relatar uma história
Que não fui eu que criei,
Eu não tive essa glória,
Eu só pus rima e métrica,
E uma análise poética,
Que permite a memória.
Confesso não a conhecia,
Patrícia a apresentou,
Esta que é supervisora
Do São Marcus, nos mostrou
Na cidade Santa Rita
E esta crônica bonita
Um anônimo noticiou:
- Era uma vez uma garotinha
Bela, pobre, que morava
Num bairro pobre também,
Numa cidade ficava
Distante, longe de tudo
E começou seu estudo
Perto de onde habitava.
-1-
Sua mãe não tinha cuidado
Com aquela bela criança
Que sempre andava suja,
Tinha um mundo sem bonança,
Roupas velhas, maltratadas,
Muitas vezes amassadas
Como a vida e a esperança.
Na escola, o professor,
Ficara penalizado
Com aquela situação
E dizia revoltado:
- "Como pode uma menina,
Mesmo assim tão pequenina,
Andar sempre nesse estado?"
Embora o professor
Vivesse em dificuldade,
Retirou do seu salário,
Com muito boa vontade,
Um pouco do seu dinheiro
E deu o presente primeiro
A menina com bondade.
Um lindo vestido azul
Foi o que ele comprou.
A menina ao usá-lo
Muito mais bela ficou
E sua mãe quando a viu
Felicidade sentiu,
Contudo se lamentou:
-2-
"- Como pode minha filha
Vestindo um traje novo
Ir tão suja pra escola,
O que vai pensar o povo?
Eu vou logo é cuidar
Se não alguém vai falar
Que com ela não me envolvo".
E a mãe passou a dar
À filha mais atenção:
Dar banho todos os dias,
A cortar as unhas e não
Esquecia de pentear
Os cabelos e usar
Perfume, pasta, sabão.
Dentes sempre escovados,
Um agradável odor.
As pessoas percebiam,
O seu pai também notou,
Que depois de uma semana,
Numa atitude bacana,
Timidamente falou:
- "Mulher, não é vergonhoso
Nossa filha tão bonita,
Agora bem arrumada,
Inteligente e benquista,
Morar aqui nesse lugar,
Vendo a hora desabar
Bem aqui na nossa vista?...
-3-
Vamos tomar providências:
Você vai a casa ajeitar
E eu nas minhas horas vagas
Vou as paredes pintar,
Plantar um belo jardim,
Limpar o chão e no fim
A cerca vou consertar".
Um pouco tempo depois,
A casa se destacava
Naquela vila pequena
E agora representava
Higiene, bons odores,
Um jardim de belas flores
Que ao povo encantava.
E os vizinhos ficaram
Bastante envergonhados
Porque moravam em barracos
Feios e desarrumados
E resolveram mudar
A situação do lugar
Que vivia em tal estado.
E de repente no bairro
Todos se interessaram,
Usaram a criatividade,
As suas casas pintaram,
A limpeza imperou
E todo o mundo adorou
Ver as flores que brotaram.
-4-
Um homem que acompanhava
A luta daquela gente,
Tomou iniciativa,
Deu um outro passo a frente,
Foi até a autoridade
Maior daquela cidade
Para dizer imponente
Que o povo se organizava,
Que por isso merecia
A atenção do prefeito
E este que bem ouvia
Deu a autorização
Pra fazer uma comissão
E estudar o que se pedia.
O povo solicitou
Pra rua, melhoramentos.
Onde havia barro e lama
Passou a asfalto ou calçamento,
Esgotos a céu aberto,
Canalizados, por certo,
Reduzia-se o lamento.
O bairro adquiriu
Ares de cidadania.
Foi com um vestido azul
Que tudo começaria,
Não era essa a intenção
Do professor em sua ação,
Mas uma história mudaria.
-5-
Ele fez o que podia,
Sua parte realizou,
Um primeiro movimento
E com isso acabou,
Sem querer, por motivar
Outras pessoas a lutar
E a vida melhorou.
Tal gesto nos faz pensar:
Será que estamos fazendo
Nossa parte, por acaso,
Aonde estamos vivendo?
Ou será estamos somente,
Nesse mundo simplesmente,
Só fingindo e nada vendo?
Será que somos daqueles
Que apenas apontamos
Os buracos pelas ruas
Ou tão somente olhamos
Crianças fora da escola,
O errado que assola
E jamais nos importamos?
É obvio que é difícil
Rápido se modificar
O estado total das coisas
E que não é fácil limpar
Toda rua, toda estrada,
Mas varrer nossa calçada
É possível realizar.
-6-
Sabemos que é difícil
Um planeta reconstruir,
Mas um vestido azul
É fácil adquirir
E principalmente doá-lo
A quem mais necessitá-lo
E não tem a quem pedir.
Há coisas muito importantes
Que têm maior valor
Do que tesouros bancários,
São moedas de amor.
E se forem endereçadas
Na ocasião adequada,
Indenizam qualquer dor.
Um lindo vestido azul,
Esta mensagem quer ser.
Reflita sobre o que aqui
Você no momento ler.
Faça já a sua parte,
Faça da ação estandarte,
Não queira pagar pra ver.
Não fique se ressentindo
Se outros ao seu redor
Estão tentando mudar
A situação pra melhor,
Junte-se a eles também,
Procure fazer o bem,
Vamos desatar o nó.
-7-
Nó que impede a melhoria
Da nossa educação,
Que impede todo o povo
Transformar a condição
De desprezo e de pobreza,
O que me causa tristeza
E muita indignação.
As forças que arrocham o nó
São o egoísmo, a ganância,
Descrença, burocracia,
A preguiça, a ignorância,
A escola sem qualidade,
A justiça sem identidade,
Corrupção e arrogância.
Com um lindo vestido azul
A mudança pode ocorrer,
Com a ação de um professor,
Assim quase sem querer,
Mas vai se consolidar
Quando o povo atuar,
Cobrar e se comprometer...
Com uma vida com justiça,
Uma educação operante,
Com uma nação solidária,
Sem corrupto e sem farsante
E pra isso acontecer
Nós devemos escolher
Certo, nossos governantes.
-8-
FIM
Francisco Diniz
João Pessoa-PB, 01 de outubro de 2005, 13h e 23min.
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